Especial

Locutor levanta mais de 82 mil e arrecada alimentos em ações sociais

Pinheirense Nael Rosa

 

“Sai da pobreza extrema para uma vida com o mínimo de dignidade e às vezes até certo luxo perante o que ela, a minha vida, já foi”. Assim Nael Rosa, 46 anos, locutor animador da Nativa FM há 17 anos define sua trajetória após sair da rua onde viveu por décadas, a Tiradentes, reduto de prostituição, tráfico de drogas e num passado nem tão distante assim também muito violento, para integrar a equipe de uma das emissoras mais estruturadas e ouvidas na zona sul.

Atualmente ele insiste em negar, mas, “seu” programa, o Bom Dia Nativa que vai ao ar nas manhãs da rádio, se tornou a esperança de muita gente que vive até mesmo na miséria num município que não demonstra economicamente sua realidade.

Para dividir espaço com as músicas e informes publicitários, surgiu em 2015 as campanhas beneficentes ou em prol de alguma causa social.

A primeira levantou através do microfone e em contato com empresários, 50 mil reais para um projeto de bombeiros voluntários no município, verba que foi usada para construir a sede da então corporação.

Junto a Empresa Fibria o locutor conseguiu a doação um caminhão para combate a incêndio florestal. Infelizmente, por falta de mais recursos essa ação que solucionaria a ausência de uma unidade de combate ao fogo naufragou devido ao elevado custo do objetivo pretendido.

Em 2017, novo desafio. A menina que nas mídias sociais hoje é carinhosamente chamada de Maria Flor foi diagnosticada com SMARD, uma espécie de AME, ou Atrofia Medular Espinhal que comprime os órgãos, inclusive os pulmões, sem cura e sem tratamento.

Em um mês de apelos pela emissora e seguidos contatos pelo Facebook e WhatsUpp, o locutor atingiu a marca de R$ 12.800,00, dinheiro, usado para que os pais se sustentassem junto à filha.

 Ele conta que quando tudo foi somado nem acreditou, pois não achava que fosse capaz de tanto em tão pouco tempo.

Mas um dia antes de terminar a campanha para Flor, em 3 de dezembro d o ano passado, surgiu um novo caso em que Rosa tinha ainda menos tempo para angariar recursos dado a gravidade da situação.

Arthur que ainda estava na barriga da mãe Ana Paula, através de um ultrassom foi diagnosticado com Hérnia Diafragmática Congênita, ou HDC, doença que desloca os órgãos de lugar e também pressiona e impede que os pulmões se desenvolvam. A única saída era embarcar quase que imediatamente para São Paulo para a realização de uma cirurgia intrauterina e com esta aumentar as chances do feto. Como Ana teria que ficar na capital paulista até o nascimento do filho, a conta era alta.

“Foi uma correria dificultada por eu estar saindo de uma campanha, a da Flor, onde se requisitava dinheiro vivo. Mas fui surpreendido outra vez e acreditem: em três dias levantei 10 mil reais”, relembra.

Infelizmente no último dia do ano e um dia antes da mãe embarcar, Arthur veio de parto prematuro e ele faleceu logo após nascer.

Os pais do menino devolveram o dinheiro ao radialista e deram a ele a liberdade de dar o destino que achasse ideal. Assim 5 mil foram depositados para Maria Flor e 5 Mil para Marciana Balhego, pelotense que ao saber das campanhas do locutor pediu ajuda a ele já que sua bebê, Helena, também tinha HDC.

Dos 34 mil reais levantados para a menina Laura que ainda está internada aguardando cirurgia, Nael Rosa entende que conseguiu interferir com seu trabalho em apelos em 10 mil reais, assim, ultrapassou os 82 mil reais conseguidos junto à população para três crianças.

Ele conta que após isso os pedidos de socorro não cessaram mais, mas agora o problema não era doença e sim, a fome que trouxe à tona uma realidade que estava suprimida em Piratini: o desemprego.

Rosa relata que diariamente chegam à emissora no horário em que ele está no ar, pais e mães que clamam por alguma coisa para comer, pois a família, geralmente grande e com muitas crianças, passam dias sem se alimentar.

“Para estes casos decidi dar um alívio à emissora, pois o programa que comando é musical e não assistencialista, assim voltei a usar minha rede social e fiz pedidos a amigos que responderam positivamente doando centenas de quilos de não perecíveis”, conta o pinheirense.

Um caso em especial que não envolvia somente alimentos, mas também fraldas para uma criança de 10 meses é destacado por ele. Segundo Nael Rosa recentemente quando chegou com dez pacotes de fraldas descartáveis a uma residência onde não havia ainda leite para outros dois menores se alimentarem e muito menos comida, pediu à mãe que trocasse o filho.

 “Para minha surpresa, quando ela começou a fazer o que pedi vi que o bebê estava usando uma sacola plástica, dessas de supermercado para que a urina fosse contida. Me emocionei, pois quando eu trocava meus irmãos  também era o que eu usava neles, isso há quase 40 anos atrás.

Mas ele concorda que agir “sozinho” leva à exaustão, e é assim que ele se sente neste momento já que o recolhimento e a entrega de alimentos não para nem aos finais de semana. O que não lhe permite parar? Seu passado que inclui quatro anos: de 1990 a 1994, em Bagé período que entre tantos fatos de dificuldade um se destaca:

“Ao final de 1994 fiquei com meus dois filhos mais velhos, hoje com 23 e 25 anos, na época com um ano e dois anos e meio para criar sozinho. Ia para a estrada, trevo de Bagè na BR 293, com os dois no colo e nenhuma mamadeira de leite para cessar a fome deles”, recorda.

Ao retornar para Pinheiro em 1995, as coisas continuaram difíceis para o locutor que Passou a morar em um chalé prestes a desabar com dois filhos e minha então esposa num espaço de no máximo 5 metros quadrados,

“Eu conheço a fome, conheço a miséria que para mim e para eles só teve fim quando entrei para a imprensa. Por tudo isso entendo que ajudar, mesmo às vezes exausto, é a forma ideal de agradecer a Deus por ter nos tirado daquela situação de penúria”, encerra.

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